Um Breve Ensaio: Uma Outra História

“A Villa da Imperatriz, central, pequena, pobre e de pouco ou nenhum commércio, cultiva algodões e milho, e tem alguma criação de gado; tem uma collectoria, e escola de primeiras letras. No seu município ficam os serrotes do Barriga e do Juçara onde tiveram suas cidades os Pulmarienses, das quais hoje nem vestígios aparecem; tal era a construção de seus edifícios, meras cabanas, vulgo quilombos.”

Antonio Joaquim de Moura, presidente da província de Alagoas, assim caracterizava na primeira metade do século XIX a atual cidade de União dos Palmares: “Central, pequena, pobre e de pouco ou nenhum commercio”, era a nossa cidade por volta do ano de 1844. O historiador alagoano, Manuel Diegues Júnior, em O Bangüê nas Alagoas, ao analisar a história dos bangüês em Alagoas determina a ocupação das terras ocupadas pelos quilombolas a partir da destruição deste, por volta do fim do século XVII. A partir da argumentação de Diegues Júnior, a formação das cidades que hoje ocupam as antigas terras quilombolas só inicia no começo do século XVIII.

Levando em conta o processo de povoamento realizado pós Cerca Real dos Macacos, é preciso compreender, “a sociedade palmarina foi construída em cima da negação da cultura quilombola”. Afirmações do tipo, “O Município de União dos Palmares teve origem em um povoado chamado Macacos, no século XVIII, à margem esquerda do Rio Mundaú” ou num “pequeno povoado de Santa Maria, antes chamado Cerca Real dos Macacos”, não corresponde à verdade histórica. Segundo Décio Freitas, ao ser destruído, do Quilombo dos Palmares, restou apenas alguns quilombolas vagando numa existência miserável, já por outro lado, a ocupação de Domingos de Pino, na primeira metade do século XVIII, parece nos confirmar a negação das raízes quilombolas na formação histórica Palmarina.

União dos Palmares surge a partir do desmembramento do município de Atalaia em 1831, desta forma entender o processo histórico de formação de tal cidade tornar-se fundamental. Atalaia tem sua origem histórica ligada a destruição do Quilombo dos Palmares, o próprio nome Atalaia, “tocaia”, esclarece suas origens. Era no “Arraial do Palmares”, ou seja, Atalaia onde as tropas comandadas por Domingos Jorge Velho se alojaram para atacar o quilombo em fins do século XVII. Como pode ser observado União dos Palmares tem sua origem diretamente ligada a negação do Quilombo dos Palmares, simbolizada por Atalaia (tocaia). Quando Domingos de Pino no começo do século XVIII constrói a Capela de Santa Maria Madalena, que será o primeiro nome do povoado, não está dando continuidade a cultura quilombola, no entanto, está confirmando a ruptura com o Quilombo dos Palmares.

Em 1831 com o desmembramento de Atalaia nasce a Vila da Nova Imperatriz, caracterizada em 1844 pelo atual presidente da província das Alagoas como: “central, pequena, pobre e de pouco ou nenhum commercio”. No principio a afirmação como vila foi conturbada, sendo em 1876 extinta e anexado novamente ao território de Atalaia, só elevada a categoria de vila em 1885. O retorno a Vila neste momento pode ser entendido pela inauguração da estrada de ferro em 1884, 88 km que ligaria na intenção de escoar o açúcar dos bangüês, segundo Manuel Diegues Júnior, a Vila da Nova Imperatriz a Maceió.

A inauguração da ferrovia marca uma nova etapa no processo histórico de formação do “ethos” palmarinos. No ano de 1890 a vila tornar-se cidade, recebendo o nome de União, tudo indica pelo fato de unir através da ferrovia os Estados de Alagoas e Pernambuco, lembrando, inicialmente o ramal ferroviário interligava União a Maceió, só mais tarde o ramal realizará a atual ligação entre Alagoas e Pernambuco. A cidade de União dos Palmares só iria receber seu atual nome no século XX, precisamente em 1944, homenagem ao Quilombo dos Palmares. Neste momento começa a se tentar criar uma memória coletiva fundamentada no Quilombo dos Palmares e na nova atmosfera econômica simbolizada pela ferrovia.

O século XX é marcado pelo aparecimento dos grandes nomes da “intelligentsia” palmarina, assim como nacionais, tendo como principais representantes Jorge de Lima, Carlos Povina Cavalcanti e Maria Mariá. Os dois primeiros só podem ser aqui vistos como naturais, ao contrário de Maria Mariá - educadora e leitora de Dostoisvisk, Tolstoi, Zola, Camões, Machado de Assis, José de Alencar entre outros grandes nomes da literatura nacional e universal - viveu e participou do cotidiano palmarino.

A instalação da Usina Laginha em terras palmarinas data do inicio da segunda metade do século XX, sua implantação caracteriza ainda mais a economia palmarina que desde o início fundamentava na cultura da cana-de-açúcar e na produção de gêneros alimentícios. Nos anos de 50 – 60 Alagoas está passando pela segunda expansão da indústria canavieira, segundo Fernando Medeiros, momento em que milhares de pequenos agricultores serão desapropriados de suas terras e encaminhados para os povoados das usinas servindo como braços de trabalhos ou repelidos para as periferias das cidades.

O gráfico da população palmarina evidencia dois fatos importantes a serem mencionados, o êxodo rural por motivos acima mencionados, que para Otávio Ianni, também ocorre devido as melhores condições de vida encontrada nas cidades e a superioridade da população feminina em relação a masculina. União dos Palmares hoje segue as perspectivas nacionais, crescimento desordenado da zona urbana e aumento da criminalidade provocado por falta de uma estrutura socioeconômica apropriada para suprir as necessidades da população.

O estudioso francês Pierre Nora em Lugares de Memória discute o significado dos eventos sociais na construção da memória coletiva, neste sentido, destaca-se duas festividades palmarinas, o Dia da Consciência Negra e a Festa de Santa Maria Madalena. Uma análise profunda nas festividades do dia 20 de novembro poderá esclarecer a real contribuição na formação da identidade palmarina, com todas as investidas na construção de uma identidade afro-brasileira palmarina pouco se tem notado no cotidiano. Por outro lado, a Festa do dia 2 de fevereiro faz parte da cultura palmarina, segundo o antropólogo Marcel Mauss é um fato social total, pois abrange toda a esfera da sociedade (religiosa, econômica, política e social).

Em pleno século XXI antigos problemas ainda assombram a cena palmarina. A economia depende dos setores de serviço, pouca ou quase nenhuma industrialização, desta forma o setor açucareiro domina a economia, em tempos de crise pouco é afetada, pois sua economia não depende do setor industrial. Os setores políticos conservadores palmarinos dominam o poder político, desta forma perpetuando o controle de algumas famílias sobre toda a sociedade, herança do coronelismo, mantendo em sua órbita uma esfera de “clientes”.

Considerações Finais
“Todo mundo ouve as mesmas coisas, todo mundo faz o mesmo horário... todo mundo vê a mesma vida por cima do muro ou na mesma esquina.”

O trecho acima foi retirado de uma música palmarina, que simboliza um pouco da atual sociedade palmarina. Muito se fala, mas pouco se faz. A problemática enfrentada, hoje, pelos estudantes e toda a sociedade não é algo novo, decorre da atmosfera gerada, anos e anos, por um sistema perverso e exclusivista de favorecimento individual. De quatro em quatro anos as mesmas pessoas saem de porta em porta na busca de votos, não para mudar a realidade palmarina, mas para perpetuar um regime autocrático de exploração e enriquecimento ilícito.

Para Sérgio Lessa e Ivo Tonet em Introdução a Filosofia de Marx, as coisas não ocorrem do nada, pelo contrário é um processo de construção histórica. Baseado nestes dois autores levantamos a hipótese, a atual situação palmarina decorre de uma construção histórica reacionária. A análise do próprio processo histórico aponta para a confirmação de tal hipótese, União dos Palmares não surge da continuação da cultura quilombola, pelo contrario, surge com um teor reacionário e de negação a essa cultura.

Não tive o desejo de reconstruir a totalidade histórica palmarina, seria impossível para qualquer historiador (imagine para um principiante), no entanto, desejei introduzir uma concepção histórica que possibilitasse o entendimento da atual sociedade. Peço desculpas por abordagens desagradáveis, porém, devo ressaltar que muitas delas surgiram da falta de fontes, tempo e da própria abordagem historiografia do autor. Para Marc Bloch, “o historiador é o ogro da lenda, fareja carne”, a carne aqui, a verdade histórica, embora a objetividade histórica haja muito ser questionada, mas citando, Hobsbawm, “o historiador trabalha com fatos”, é o fato real, concreto, que o historiador busca reconstruir do enredo histórico.

José Monteiro
Estudante de História - UFAL

3 comentários:

Wenndell A. A. disse...

Maravilha de texto, Monteiro. Parabéns.

Marcio Ferreira disse...

Monteiro parabéns é um bom texto para reflexão. A auto estima do povo desta terra é uma questão seria, e o que com você realmente coloca, é essa negação da cultura de suas próprias raizes, que faz com que a cada semana da consciênica negra, os palmarinos parecem turistas em sua própria terra. Não se reconhecem como herdeiros de um legado gistórico. Mais uma vez parabéns e continue analisando o presente a partir de nossa história.

Genisete de Lucena Sarmento disse...

Parabéns pelo trabalho. Espero sinceramente que vc possa ampliá-lo e contar a nossa história. Carecemos disso.

P.S. Durante a Semana Jorge de Lima, propus que fizéssemos uma semelhante para conhecermos a produção científica sobre o nosso município. A minha proposta continua de pé e gostaria muito de contar com a sua participação.